Segunda-feira, 21 de Maio de 2012

Teclas tremidas

Nas teclas de um piano
em que a vibração
lhe tremeu entre os dedos
cresceu a lembrança
que foi abafando
sem saber

No olhar
viveu o desespero
de não escolher
quem quis amar

Numa boca
seca de palavras
em silêncio
esqueceu os dias
mergulhando nas noites
dos seus sentidos

Foi o que sentiu
uma sombra deixada
no rasgar da noite
cheia de vazios
no caminho estreito
que lhe percorreu a alma
e incendiou o corpo

*Segredos de mim
cobertos de ti
um sal que se dilui
nos meus olhos
e me amarga a boca *

Cidália Oliveira

Quarta-feira, 11 de Abril de 2012

Vício de sílabas

O segredo
entranhou-se-lhe na boca
os suspiros na alma
o silêncio despertou-a
 

Abraçou a noite
amou as sombras
à luz das estrelas
 


Beijou a chuva
que lhe dissolveu os olhos
em lágrimas comuns
ao mais vivo dos mortais

Lembra-se de escrever a noite
deixar de tentar amar
limpou-lhe o corpo
mas o amor
marcou-lhe o rosto
 


Numa perfeita imperfeição
que lhe cavou os olhos
e desalinhou o gosto

Dançou-lhe
uma melodia
nos ouvidos
escondeu-se nos seus dedos
perdeu-se em porquês
que não procurava
inventou um poema
de palavras mudas
 


Vício de sílabas
regadas a tinta
sopro de palavras despidas

Tempo do silêncio
ser poeta
faltou-lhe o sentir
de outros dias
os sorrisos
de outros momentos

Eternizou as palavras

tentando mudar o tempo
fecharam-se os céus
abriram-se os olhos

Suspirou a boca

de saudade (de mim)
 
Cidália Oliveira


*Vidas que vivem em mim

sonhos ainda que procuro*

Sábado, 11 de Fevereiro de 2012

Entre pontos

Estranho o beijo
que lhe roubou o tempo

Relembrou os dias
em que a poesia
lhe dançou nos dedos

Sentiu o amor
como as teclas de um piano
em que a melodia
deixou de se ouvir

Menina de escuro cabelo
de claros sonhos
sedenta de vida
procurou as águas do Douro
o corpo na foz ficou
a alma na saudade vive

As recordações
não se apagam
os amores
não se esquecem

Os porquês não se explicam
o vazio não se justifica
mas a tristeza fica
entre cada linha escrita

O sótão de memórias
é infinito
entre versos
o recordar fica descrito

.
Entre linhas
entre pontos
.

Terça-feira, 13 de Dezembro de 2011

Contra (Tempo)

Tempo
em que as flores
lhe nasceram
da boca

Brilharam os dias
secaram as noites
perdidas além mar
num ir
sem querer voltar

Efémera verdade
código perdido
nas reticências
de uma sedenta
e lenta vida

Silêncio de fundo
eco
de ponto final

Nem todo o princípio
teve um fim
mas o silêncio
esse sim

Mulher de uma noite
Poeta de um só dia
ao abrigo das palavras
de hoje e de sempre

Suspiro arrependido
luta interna
verdade estéril
entranhada
nas raízes
de um Contra
(tempo)

.
Os meus dias
afogados
nas tuas noites
.

Segunda-feira, 31 de Outubro de 2011

Abrigo (entre dedos)

Esculpidos no gelo
olhos de cristais
soltaram-se no silêncio
de um porquê perdido

Rodou a lua
num amanhecer lento
penumbra de saudade
face quente
encanto de um abrigo
entre dedos

Beijou o tempo
no compasso
de um doce relento
sonho entre folhas
de uma madrugada rugosa
misturada à poeira
que o pensamento deixou

Sentiu verdade
nas mentiras
que foi colhendo
enganou o passado
cobrindo de ouro
o presente

Domingo, 9 de Outubro de 2011

Entre linhas

Entre linhas
de passos descalços
foi sentindo
o húmido orvalho
roubado a noite

na sombra deixou
os mesmos suspiros
de sempre
nas rugas que não tinha
os segredos de ontem

finalmente livre
vive novamente
de amor pelas palavras
que nunca lhe secaram

raízes nos seus pés
essência de um mundo
poeta que nunca foi
perdida nas palavras
que nunca teve

Quarta-feira, 21 de Setembro de 2011

Adeus doentio


Trazia na boca um sabor
de cigarro rejeitado pela saliva
dias e noites
foi somando
em números ímpares
tempo dissolvido
num silêncio caustico
arame na boca
desprezo no corpo
sombra de sempre
num olhar perdido
mentira entranhada na pele
prazo diminuído
numa lavagem de palavras
sem sentido

Seja este um último adeus
ao teu erro
um adeus doentio
que se entranha
nas palavras gastas
sussurradas, esmigalhadas
num último
copo bebido