domingo, 4 de setembro de 2011
Vermelho vestida
Tempo finito
vermelho vivo
cor de chama
em fogo
Natureza estática
verde envolto
cristalino vento
entre duas cordas
Menina eras
em tempos rotos
mulher te fizeste
em raro tempo
Saudade efémera
alimento foste
fado de poeta
poema gemido
de uma guitarra usada
Seguiu a vida
a mulher
de vermelho vestida
seguiu e segue
segunda-feira, 1 de agosto de 2011
Preto luar
Pretos eram os seus olhos
cor de carvão queimado
em noite de lua vazia
Pretos eram os seus cabelos
que voaram numa dança irregular
enquanto o pó das estrelas
pairou no ar
Pretos eram os seus sonhos
com reflexos de branco real
tatuados num dos seus ombros
Preta era a sua roupa
camuflagem de vingança esquecida
espera arrefecida
na cápsula do tempo
Preto foi o luar
que lhe ficou no rosto
numa noite bela
por acabar
Preto luar
de olhos apagados
pelo ar
terça-feira, 21 de junho de 2011
Eco de sol
Do eco fez-se sol
do vazio renasceu
a luz da áurea perdida
nos tempos
Percorreu a areia
temida de fria
foi deixando marcas
que a maré levou
aos soluços
Deixou de pensar
apenas sentiu
o pôr-do-sol
com magia de luar
O corpo
separou-se-lhe da alma
navegou, navegou
ainda navega
e reluz na espiral
das ondas
que a despiram
de dúvidas e desgosto
Fechou os olhos
e lá ficou
ainda hoje se vê
no vermelho do céu
trocando carícias
com o rei sol
quarta-feira, 15 de junho de 2011
Na pele da calçada
Estranhou
enquanto o cheiro a medo
se entranhou nas ranhuras
da calçada
que percorreu
descalça
Estranha menina
que se escondeu
na pele
de uma mulher
perdida
Levou na alma
o que o mundo esqueceu
regou o corpo
numa chuva de gotas
dos dedos do céu
No coração guardou
restos de tempestades
embrulhados em páginas
de mil e uma lágrimas
Na alma afogou
o que as palavras
esconderam
No corpo gravou
cada dia e cada hora
nas rugas do tempo
em folhas de rastos
de leves poeiras
de saudade
Viveu uma vida
em que cada minuto
se desligou
como uma lâmpada
fundida
Esperou pelo ontem
que lhe salgou a boca
esperou
ainda espera
e desespera
entre cada lágrima
que solta
pelo corpo
sábado, 4 de junho de 2011
Girassol de sol
sexta-feira, 15 de abril de 2011
Rugas de vida
Um silêncio que torturava
as paredes de uma pele
escamosa e enrugada
os limites de um tempo
que escorriam
das rugas da vida
uma natureza selvagem
de olhos de musgo
corpo de casca de árvore
talhado pelas gotas do orvalho
de uma manhã submersa
no desconhecido
sentia-se
encurralada num tempo
que não era seu
em que as palavras se cuspiam
como um fruto de sabor
amargo e verde
Página a página
desfolhou
uma boca sem linhas
onde as palavras
mergulharam
num mar selvagem
de reticências
num ponto sem nó
numa letra sem dó
Soltou-se entre as linhas
de dois tempos
guardou as lágrimas de ontem
e desse sal
fez o tempero
de um novo fim
domingo, 27 de março de 2011
Labirinto de segredos
Deu as chamas
em troca
do calor das estrelas
seguiu caminho
num labirinto
em que as paredes opacas
gemeram num silêncio
mumificador
Pensou na vida
no vazio
em que o seu corpo
se tinha fechado
num compasso passado
feito das barreiras
dos seus próprios limites
Um livro
em que as páginas
desesperaram
no branco
imaculado do nada
Segredos gravados
a ferro e fogo
segredos
sem sede
segredos
de silêncio
domingo, 20 de março de 2011
Eternidade incerta
Texto Jc Patrão/ Cidália Oliveira
Hoje acordei cedo
na ânsia de tocar o futuro
Ver flores negras à janela
e sentir apenas almas
de placebo
que respiraram a sua cor…
Cantam a um anjo
caído
que sem desolação
continuará a voar…
E sonhará que
será sempre possível
viajar em segurança para lá
da derradeira floresta
da vida
desde que não perturbemos
a sua chave para a eternidade…
Eternidade incerta
nas linhas de um corpo
irregulares ao tato
das mãos de seda
Caixa de Pandora
do sentir de um poeta
preso no corpo
de uma musa
Ardem os olhos
ardem palavras
no incerto do futuro
em silêncio
terça-feira, 15 de março de 2011
Solidão de prata
Afogaram-se
os cabelos da musa
num mar de olhar perdido
na prata de um amor
sem tempo
Brilharam purpuras
aromatizadas e cristalizadas
em pó de sonhos
nas retinas de uns olhos
cheios de sabores
Calou-se o tempo
no conforto do silêncio
entre cada fragmento
de um beijo
Rasgaram-se as nuvens
envolvendo o caís
numa solidão de prata
Sentir inocente
inocência sentida
no relevo
da boca do tempo
o teu tempo
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
Ponto de encontro
Entre dois olhares
surgiu um ponto
entre dois pontos
um jogo de letras
gravadas nas badaladas
de palavras escritas
a luz da lua
de uma meia noite corrida
a vento ciumento
No cume do seu sentir
em que tudo aconteceu
e nada se esqueceu
o medo de ser
cercou-lhe a boca
vidrou-lhe os olhos
confundiu-lhe o gosto
em ligeiro desgosto
Do vazio fez o seu escudo
da incerteza
a calçada
por onde caminhou
prisioneira
do seu próprio corpo
As horas foram-se
somando e gravando
em fendas incertas
na corda do tempo
as estações do ano
germinado
até se apagarem
no inverno destemido
Como uma leve flor
de folhas delicadas
talhadas pelo gelo
abriu-se ao mundo
sem saber
misterioso enigma
aos olhos de quem
a observou
ao longe
bem longe
Cor nas pétalas
no sentir eterno
de um amor
perdido
Ponto de encontro
sem ponto
de um novo amor
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
Sopro de luz
Na luz de uma noite
em restos de pó de estrela
deu o seu último sopro
fechou os olhos
calmamente com tempo
Com palavras soltas ao vento
quebrou rochedos
endurecidos pelas lágrimas
sal do mundo
nas ondas puras
de um mar sem ar
Fez do sabor
de uma boca perdida
o seu porto de abrigo
o seu farol
nas ondas dos sonhos
gravou a imagem
de musa perdida
Tentou descrever
tudo o que na alma sentiu
mas ficaria sempre por dizer
tudo o que no corpo guardou
os sabores que nela navegavam
numa eterna
saudade de ter
Aconchegou-se num cobertor
feito de recordações
de lápis na mão
foi escrevendo o que a boca
não permitiu dizer
Assim se fez poeta por uma noite
no abrigo das palavras
de hoje e de sempre
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
Fragmentos de tempo

Foto:Carlos Cascalheira "O maltês"
Com um pé na terra
uma mão na lua
os olhos no sol
o cabelo nas estrelas
caminhava
entre a noite e o dia
dos segmentos do tempo
Natureza selvagem
fonte de enigmas
sal do mar
força de ondas
esmagadas nos rochedos
Marcas na areia
iluminadas pelo eclipse
de ontem
denunciaram um rasto
à muito perdido
de um corpo errante
Linhas de sombras
nas curvas
dos limites do sol
luz do dia
fragmentos de tempo
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
Poeira de lua

Foto:Carlos Cascalheira "O maltês"
Os olhos ardiam-lhe
das horas passadas
a fixar a lua
o corpo cansou-se
de tanto esperar
numa sede de amor
secou-lhe a boca
perdera o gosto
Imaginou noites
em que tudo
foi diferente
noites em que os olhares
se tocaram
em que os sorrisos
se rasgaram
e iluminaram
a madrugada sombria
Dessa lua
colheu poeiras de sonhos
lentamente espalhou-as
para voarem livres
até as mãos
de quem for capaz
de as voltar a moldar
na forma inicial
Nessa lua
vive um rosto
no corpo que a observa
a saudade de uma boca
perdida nos dedos
do tempo
domingo, 19 de dezembro de 2010
Preso no silêncio
Mistérios seguros
escondidos nas linhas
de uma retina
retida pela luz
Brilho supérfluo
de uma imagem
em espirais iguais
com contorno de pele
pedra preciosa
de um corpo
o centro de tudo
Mensagens gravadas
nos pergaminhos temporais
de uma alma segura
pupila dilatada
num anoitecer fragmentado
pelos cristais da noite
Traços de vida
nos limites segmentados
de um olhar
preso no silêncio
Silêncio da alma
segredo do mundo
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
Tentação

Foto:Carlos Cascalheira "O maltês"
Tentação
Na penumbra da noite
uma lua envolta de liberdade
olhar de fogo
incendiou o céu
Uma musa desprotegida
soltou o seu último suspiro
na floresta das cores sentidas
enquanto colheu
a maça temida e proibida
Misto de tentação
perigo apetecido
morte certa ou descoberta?
De papilas gustativas adormecidas
deu a primeira trinca
de sentidos estremecidos
a tentação invadiu-lhe o corpo
do fogo de um olhar
deslizaram as mais puras
lágrimas de vida
o coração bateu pela primeira vez
a boca degustou
o doce sabor
do despertar da vida
No simples trincar
a lua de fogo soltou-se
da tentação do próprio ser
Ainda hoje
percorre as noites
a procura de novas sensações
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