quarta-feira, 15 de junho de 2011
Na pele da calçada
Estranhou
enquanto o cheiro a medo
se entranhou nas ranhuras
da calçada
que percorreu
descalça
Estranha menina
que se escondeu
na pele
de uma mulher
perdida
Levou na alma
o que o mundo esqueceu
regou o corpo
numa chuva de gotas
dos dedos do céu
No coração guardou
restos de tempestades
embrulhados em páginas
de mil e uma lágrimas
Na alma afogou
o que as palavras
esconderam
No corpo gravou
cada dia e cada hora
nas rugas do tempo
em folhas de rastos
de leves poeiras
de saudade
Viveu uma vida
em que cada minuto
se desligou
como uma lâmpada
fundida
Esperou pelo ontem
que lhe salgou a boca
esperou
ainda espera
e desespera
entre cada lágrima
que solta
pelo corpo
sábado, 4 de junho de 2011
Girassol de sol
sexta-feira, 15 de abril de 2011
Rugas de vida
Um silêncio que torturava
as paredes de uma pele
escamosa e enrugada
os limites de um tempo
que escorriam
das rugas da vida
uma natureza selvagem
de olhos de musgo
corpo de casca de árvore
talhado pelas gotas do orvalho
de uma manhã submersa
no desconhecido
sentia-se
encurralada num tempo
que não era seu
em que as palavras se cuspiam
como um fruto de sabor
amargo e verde
Página a página
desfolhou
uma boca sem linhas
onde as palavras
mergulharam
num mar selvagem
de reticências
num ponto sem nó
numa letra sem dó
Soltou-se entre as linhas
de dois tempos
guardou as lágrimas de ontem
e desse sal
fez o tempero
de um novo fim
domingo, 27 de março de 2011
Labirinto de segredos
Deu as chamas
em troca
do calor das estrelas
seguiu caminho
num labirinto
em que as paredes opacas
gemeram num silêncio
mumificador
Pensou na vida
no vazio
em que o seu corpo
se tinha fechado
num compasso passado
feito das barreiras
dos seus próprios limites
Um livro
em que as páginas
desesperaram
no branco
imaculado do nada
Segredos gravados
a ferro e fogo
segredos
sem sede
segredos
de silêncio
domingo, 20 de março de 2011
Eternidade incerta
Texto Jc Patrão/ Cidália Oliveira
Hoje acordei cedo
na ânsia de tocar o futuro
Ver flores negras à janela
e sentir apenas almas
de placebo
que respiraram a sua cor…
Cantam a um anjo
caído
que sem desolação
continuará a voar…
E sonhará que
será sempre possível
viajar em segurança para lá
da derradeira floresta
da vida
desde que não perturbemos
a sua chave para a eternidade…
Eternidade incerta
nas linhas de um corpo
irregulares ao tato
das mãos de seda
Caixa de Pandora
do sentir de um poeta
preso no corpo
de uma musa
Ardem os olhos
ardem palavras
no incerto do futuro
em silêncio
terça-feira, 15 de março de 2011
Solidão de prata
Afogaram-se
os cabelos da musa
num mar de olhar perdido
na prata de um amor
sem tempo
Brilharam purpuras
aromatizadas e cristalizadas
em pó de sonhos
nas retinas de uns olhos
cheios de sabores
Calou-se o tempo
no conforto do silêncio
entre cada fragmento
de um beijo
Rasgaram-se as nuvens
envolvendo o caís
numa solidão de prata
Sentir inocente
inocência sentida
no relevo
da boca do tempo
o teu tempo
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
Ponto de encontro
Entre dois olhares
surgiu um ponto
entre dois pontos
um jogo de letras
gravadas nas badaladas
de palavras escritas
a luz da lua
de uma meia noite corrida
a vento ciumento
No cume do seu sentir
em que tudo aconteceu
e nada se esqueceu
o medo de ser
cercou-lhe a boca
vidrou-lhe os olhos
confundiu-lhe o gosto
em ligeiro desgosto
Do vazio fez o seu escudo
da incerteza
a calçada
por onde caminhou
prisioneira
do seu próprio corpo
As horas foram-se
somando e gravando
em fendas incertas
na corda do tempo
as estações do ano
germinado
até se apagarem
no inverno destemido
Como uma leve flor
de folhas delicadas
talhadas pelo gelo
abriu-se ao mundo
sem saber
misterioso enigma
aos olhos de quem
a observou
ao longe
bem longe
Cor nas pétalas
no sentir eterno
de um amor
perdido
Ponto de encontro
sem ponto
de um novo amor
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
Sopro de luz
Na luz de uma noite
em restos de pó de estrela
deu o seu último sopro
fechou os olhos
calmamente com tempo
Com palavras soltas ao vento
quebrou rochedos
endurecidos pelas lágrimas
sal do mundo
nas ondas puras
de um mar sem ar
Fez do sabor
de uma boca perdida
o seu porto de abrigo
o seu farol
nas ondas dos sonhos
gravou a imagem
de musa perdida
Tentou descrever
tudo o que na alma sentiu
mas ficaria sempre por dizer
tudo o que no corpo guardou
os sabores que nela navegavam
numa eterna
saudade de ter
Aconchegou-se num cobertor
feito de recordações
de lápis na mão
foi escrevendo o que a boca
não permitiu dizer
Assim se fez poeta por uma noite
no abrigo das palavras
de hoje e de sempre
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
Fragmentos de tempo

Foto:Carlos Cascalheira "O maltês"
Com um pé na terra
uma mão na lua
os olhos no sol
o cabelo nas estrelas
caminhava
entre a noite e o dia
dos segmentos do tempo
Natureza selvagem
fonte de enigmas
sal do mar
força de ondas
esmagadas nos rochedos
Marcas na areia
iluminadas pelo eclipse
de ontem
denunciaram um rasto
à muito perdido
de um corpo errante
Linhas de sombras
nas curvas
dos limites do sol
luz do dia
fragmentos de tempo
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
Poeira de lua

Foto:Carlos Cascalheira "O maltês"
Os olhos ardiam-lhe
das horas passadas
a fixar a lua
o corpo cansou-se
de tanto esperar
numa sede de amor
secou-lhe a boca
perdera o gosto
Imaginou noites
em que tudo
foi diferente
noites em que os olhares
se tocaram
em que os sorrisos
se rasgaram
e iluminaram
a madrugada sombria
Dessa lua
colheu poeiras de sonhos
lentamente espalhou-as
para voarem livres
até as mãos
de quem for capaz
de as voltar a moldar
na forma inicial
Nessa lua
vive um rosto
no corpo que a observa
a saudade de uma boca
perdida nos dedos
do tempo
domingo, 19 de dezembro de 2010
Preso no silêncio
Mistérios seguros
escondidos nas linhas
de uma retina
retida pela luz
Brilho supérfluo
de uma imagem
em espirais iguais
com contorno de pele
pedra preciosa
de um corpo
o centro de tudo
Mensagens gravadas
nos pergaminhos temporais
de uma alma segura
pupila dilatada
num anoitecer fragmentado
pelos cristais da noite
Traços de vida
nos limites segmentados
de um olhar
preso no silêncio
Silêncio da alma
segredo do mundo
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
Tentação

Foto:Carlos Cascalheira "O maltês"
Tentação
Na penumbra da noite
uma lua envolta de liberdade
olhar de fogo
incendiou o céu
Uma musa desprotegida
soltou o seu último suspiro
na floresta das cores sentidas
enquanto colheu
a maça temida e proibida
Misto de tentação
perigo apetecido
morte certa ou descoberta?
De papilas gustativas adormecidas
deu a primeira trinca
de sentidos estremecidos
a tentação invadiu-lhe o corpo
do fogo de um olhar
deslizaram as mais puras
lágrimas de vida
o coração bateu pela primeira vez
a boca degustou
o doce sabor
do despertar da vida
No simples trincar
a lua de fogo soltou-se
da tentação do próprio ser
Ainda hoje
percorre as noites
a procura de novas sensações
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
Sombra na planície
Foto:Carlos Cascalheira "O maltês"
O céu que ficou nos olhos
de um olhar tremido
um limite de linhas irreais
nuvens cor de fogo
num arame farpado de vida
Imagem distante, inconstante
memória sensitiva
deturpada pelas cores
pôr-do-sol enriquecido
na sombra
de um corpo rendido
Enigmas na boca
corpo de mel
raiz de musa
corpo de encanto
preso na margem
de um olhar de fogo
com sombra na planície
sedenta de alvorada
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
Mãos de Criador

Foto:Carlos Cascalheira "O maltês"
Mãos de barro que escondem
o trabalho de uma vida
moldam, testam sensações
de uma perfeição inata
no mais simples toque de dedos
a forma ganha vida
ondas de sentir
Envolvidas em cada movimento
de construção e definição
do mais simples gesto
se cria a arte
aos olhos de quem o sente
como seu fruto,seu filho
Mãos que encarnam
a força da criação de um Deus
no poder do momento
se rega o mundo
de obras perfeitas
de autores incógnitos
na busca de uma perfeição esquecida
aos olhos do mundo
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
A cidade dos sonhos perdidos
Caminhou rua a rua
até que a força lhe falhasse
seca de lágrimas
consumida pelo frio
caminhou sem destino
a procura do incerto
De tantas voltas dadas
perdeu-se em ruas desiguais
de casas burguesas
em olhares estranhos
fez o conforto
do desconforto
Nas primeiras neves
de um inverno esquecido
enterrou sonhos, sorrisos
esmigalhou os pés
até lhe gelarem as entranhas
Seguiu caminho
por um vale desprotegido
em que um rio tímido
gemia ao ser fragmentado
por uma represa
que lhe tirava a liberdade
Nessa cidade
ficaram os seus passos
gravados em cada ruela
os seus cabelos
fragmentados pelo vento
espalhados no incerto
A certeza de não voltar
ficou escrita na despedida
esquecera os sonhos
à medida que foi perdendo
a luta contra o tempo
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