segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Sopro de luz


Na luz de uma noite
em restos de pó de estrela
deu o seu último sopro
fechou os olhos
calmamente com tempo

Com palavras soltas ao vento
quebrou rochedos
endurecidos pelas lágrimas
sal do mundo
nas ondas puras
de um mar sem ar

Fez do sabor
de uma boca perdida
o seu porto de abrigo
o seu farol
nas ondas dos sonhos
gravou a imagem
de musa perdida

Tentou descrever
tudo o que na alma sentiu
mas ficaria sempre por dizer
tudo o que no corpo guardou
os sabores que nela navegavam
numa eterna
saudade de ter

Aconchegou-se num cobertor
feito de recordações
de lápis na mão
foi escrevendo o que a boca
não permitiu dizer

Assim se fez poeta por uma noite
no abrigo das palavras
de hoje e de sempre

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Fragmentos de tempo


Foto:Carlos Cascalheira "O maltês"

Com um pé na terra
uma mão na lua
os olhos no sol
o cabelo nas estrelas
caminhava
entre a noite e o dia
dos segmentos do tempo

Natureza selvagem
fonte de enigmas
sal do mar
força de ondas
esmagadas nos rochedos

Marcas na areia
iluminadas pelo eclipse
de ontem
denunciaram um rasto
à muito perdido
de um corpo errante

Linhas de sombras
nas curvas
dos limites do sol
luz do dia
fragmentos de tempo

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Poeira de lua


Foto:Carlos Cascalheira "O maltês"


Os olhos ardiam-lhe
das horas passadas
a fixar a lua
o corpo cansou-se
de tanto esperar
numa sede de amor
secou-lhe a boca
perdera o gosto

Imaginou noites
em que tudo
foi diferente
noites em que os olhares
se tocaram
em que os sorrisos
se rasgaram
e iluminaram
a madrugada sombria

Dessa lua
colheu poeiras de sonhos
lentamente espalhou-as
para voarem livres
até as mãos
de quem for capaz
de as voltar a moldar
na forma inicial

Nessa lua
vive um rosto
no corpo que a observa
a saudade de uma boca
perdida nos dedos
do tempo

domingo, 19 de dezembro de 2010

Preso no silêncio


Mistérios seguros
escondidos nas linhas
de uma retina
retida pela luz

Brilho supérfluo
de uma imagem
em espirais iguais
com contorno de pele
pedra preciosa
de um corpo
o centro de tudo

Mensagens gravadas
nos pergaminhos temporais
de uma alma segura
pupila dilatada
num anoitecer fragmentado
pelos cristais da noite

Traços de vida
nos limites segmentados
de um olhar
preso no silêncio

Silêncio da alma
segredo do mundo

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Tentação


Foto:Carlos Cascalheira "O maltês"


Tentação

Na penumbra da noite
uma lua envolta de liberdade
olhar de fogo
incendiou o céu

Uma musa desprotegida
soltou o seu último suspiro
na floresta das cores sentidas
enquanto colheu
a maça temida e proibida

Misto de tentação
perigo apetecido
morte certa ou descoberta?

De papilas gustativas adormecidas
deu a primeira trinca
de sentidos estremecidos
a tentação invadiu-lhe o corpo
do fogo de um olhar
deslizaram as mais puras
lágrimas de vida
o coração bateu pela primeira vez
a boca degustou
o doce sabor
do despertar da vida

No simples trincar
a lua de fogo soltou-se
da tentação do próprio ser

Ainda hoje
percorre as noites
a procura de novas sensações

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Sombra na planície


Foto:Carlos Cascalheira "O maltês"


O céu que ficou nos olhos
de um olhar tremido
um limite de linhas irreais
nuvens cor de fogo
num arame farpado de vida

Imagem distante, inconstante
memória sensitiva
deturpada pelas cores
pôr-do-sol enriquecido
na sombra
de um corpo rendido

Enigmas na boca
corpo de mel
raiz de musa
corpo de encanto
preso na margem
de um olhar de fogo
com sombra na planície
sedenta de alvorada

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Mãos de Criador


Foto:Carlos Cascalheira "O maltês"


Mãos de barro que escondem
o trabalho de uma vida
moldam, testam sensações
de uma perfeição inata
no mais simples toque de dedos
a forma ganha vida
ondas de sentir
Envolvidas em cada movimento
de construção e definição
do mais simples gesto
se cria a arte
aos olhos de quem o sente
como seu fruto,seu filho

Mãos que encarnam
a força da criação de um Deus
no poder do momento
se rega o mundo
de obras perfeitas
de autores incógnitos
na busca de uma perfeição esquecida
aos olhos do mundo

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A cidade dos sonhos perdidos


Caminhou rua a rua
até que a força lhe falhasse
seca de lágrimas
consumida pelo frio
caminhou sem destino
a procura do incerto

De tantas voltas dadas
perdeu-se em ruas desiguais
de casas burguesas
em olhares estranhos
fez o conforto
do desconforto

Nas primeiras neves
de um inverno esquecido
enterrou sonhos, sorrisos
esmigalhou os pés
até lhe gelarem as entranhas

Seguiu caminho
por um vale desprotegido
em que um rio tímido
gemia ao ser fragmentado
por uma represa
que lhe tirava a liberdade

Nessa cidade
ficaram os seus passos
gravados em cada ruela
os seus cabelos
fragmentados pelo vento
espalhados no incerto

A certeza de não voltar
ficou escrita na despedida
esquecera os sonhos
à medida que foi perdendo
a luta contra o tempo

terça-feira, 23 de novembro de 2010

As linhas das sombras

Foto:Carlos Cascalheira "O maltês"

De linhas de sombras
fez um caminho incerto
entre ruas e ruelas
deixou rastos
de uma vida por viver

Invísivel ao mundo
deslizou de alma sem corpo
corpo roubado
olhar tremido
sorriso esquecido

Ainda hoje ao anoitecer
se ouvem suspiros
que se confundem
com brisa nocturna
suspiros de uma sombra
de cores rompidas
pelos dedos de vidas passadas

Existe sem corpo certo
no vulto de todo
o amor despigmentado
entre as linhas de sombras
que procuram as suas cores
as cores do amor

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Intensamente

Intensamente tocar
numa alma
esquecida pelo tempo
orquídea selvagem
olhar de fogo
mulher ardente
relâmpago em alto mar
indomável no ser
incomparável no sentir
das mil e uma noites
renascida
flor de amor
veneno em boca
doce tentação
breve e longínqua ilusão
de um coração preso
que ama sem razão
cega de amor
amor
com sabor
o teu sabor


sábado, 13 de novembro de 2010

Ponto (in) finito

Num ontem
de um tempo apressado
no limite da entrega
dois pontos se cruzaram
da base de sentimentos
frescos, leves
nasceu uma linha única
irregular, curva
que deslizou evitando
obstáculos imprevistos
lentamente deixou rasto
de poeira de sonho

A distância percorrida
foi aumentando
a linha foi enfraquecendo
as bases desaparecendo
apenas um dos pontos
se manteve imóvel
apenas um dos dois
acreditava, existia

De dois pontos
nasceu tudo
sem o preverem
num ponto (in) finito
perdeu-se tudo
sem o travarem

Na linha desse sentir
o querer insiste
o querer persiste
no ponto do limite
da uma boca
no reencontrar sem limite
do céu
de dois olhares


quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Sorriso usado

O vento revolto
gemeu a volta das árvores
destemido
rasgou folhas
arrancou raízes
levou o resto
de uma primavera florida

Correu numa calçada
assombrada pela noite
a chuva afogava a terra
que gritava de sufoco
em mágoa
ali ficou
alheia a tudo
num mundo de tristes
fez o seu esquecimento
no desprezo
de respostas negadas
no deixar de ser
sem sequer ter sido
capaz de amar

Triste ser
coração de pedra
olhar vazio
sorriso usado
e esquecido

sábado, 6 de novembro de 2010

Palavras que tocam

Num tremer de dedos
descontrolado e constante
entre lágrimas e suspiros
escreveu palavra a palavra
o que no coração guardava

Longe estava o tempo
em que sonhava
com o amor
escolheu viver
viver de amor
saboreando cada momento
mesmo que por vezes
o amargo lhe fica-se
travado na boca
no intervalo de um beijo

Um beijo de vida
de suave carinho
num leve tocar
nas ondas de um corpo
tímido, despido
no sentir de silêncios
compassadamente mágicos

Amou
entre cada pausa
de dois olhares
desenhou na pele
símbolos eternos
da entrega
de duas almas
com tempo

Sentiu amor
em cada despertar
em cada adormecer
por simplesmente
amar
num mar de amor
com limite
na linha de uma boca
de sal
o tempero
da vida

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Despertar sentido

Sentidos adormecidos
calcificados
mumificados
pelos rios de lágrimas
de dúvidas sentidas
no rosto de um ser
que nasceu do viver

Gravou palavras
queimou noites
soltou gemidos
nunca ouvidos
pouco entendidos
nas entrelinhas ficou
o que não quis mostrar
fechou-se em copas
numa caixa
feita papel rasgado
de desamor
perdido no tempo

De sentidos adormecidos
caminhou suavemente
abriu os olhos
numa madrugada
em que o sol queimou os céus
aquecendo-lhe o corpo
sentiu-se renascer
num calor
que lhe percorreu a pele

Sentiu vida
dentro de um coração
que sempre bateu
em silêncio

Bate coração
desperta-me os sentidos
leva-me
prende-me
nesta liberdade
que se tatuou
em tinta de dedos
num toque
apenas teu
e meu


quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Soltou-se o tempo


Fecharam-se
os olhos
da noite
num escurecer
sem fim

Num segundo
soltara-se
o tempo
e as lágrimas
que decoravam
as cortinas de pele
da alma
voaram
para além do horizonte
sem rasto
sem cheiro
nem luz

Tempo
sem tempo
de momentos
sem gosto
nem rosto

Em que (me)soltei
para (te)encontrar
na teia
do meu tempo
o nosso tempo